Caminhada pela Inclusão abre Semana da Pessoa com Deficiência em Taquari

Entidades, escolas e comunidade de Taquari participaram, na sexta-feira, 21 de agosto, da Caminhada pela Inclusão, atividade que abriu a programação da Semana da Pessoa com Deficiência no município. A mobilização foi promovida pela Prefeitura de Taquari, por meio da secretaria Municipal de Habitação e Assistência Social, em conjunto com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE).

Participaram da caminhada representantes de entidades de assistência social, entre elas Pella Bethânia e Lar São José, além de escolas municipais e da Escola de Educação Infantil Esconderijo Sapeca. O grupo percorreu o trecho comercial da rua 7 de Setembro, entre o Super Centro de Compras e a Praça da Matriz.
Com o tema “Deficiência não define, oportunidade transforma; inclua nossa voz”, a Semana da Pessoa com Deficiência contou com atividades voltadas à conscientização, à promoção dos direitos e à valorização das pessoas com deficiência.

Reflexão e convivência

A diretora da APAE de Taquari, Lisa Calçada Martins, avaliou a programação como um momento de integração e reflexão para profissionais, alunos, famílias e comunidade. “Encerramos nossa Semana da Pessoa com Deficiência com o coração cheio de alegria e gratidão. Foi muito bonito perceber o envolvimento dos nossos profissionais, alunos e famílias, cada um participando dentro das suas possibilidades, e ver tantas escolas, professores e pessoas da comunidade acreditando e caminhando conosco nessa causa”, afirma Lisa.
Segundo a diretora, momentos como esse também permitem que os profissionais reflitam. “Para nós, profissionais, esses momentos são sempre uma oportunidade de parar, refletir, repensar nossas práticas e, acima de tudo, renovar as forças e a energia para continuarmos fazendo a diferença”, disse Lisa. “A balada para nossos adolescentes e adultos foi um momento muito especial. Foi lindo vê-los aproveitando, se divertindo e interagindo com os colegas das outras APAEs e com a Pella Bethânia. São momentos de convivência que ficam guardados no coração”, relata Lisa.
Conforme a diretora, o almoço especial que seria realizado ontem no Sítio do Lago foi transferido para a próxima quarta-feira, em razão da previsão do tempo.

“Nunca enxergamos a deficiência como uma limitação”

Aline Rosa Pereira, mãe de João Vítor Rosa Pereira, participou da caminhada e compartilhou a trajetória da família com o Jornal O Fato. Formada em Letras, com habilitação em Português e Espanhol, Aline trabalhou como professora até 2004, quando nasceu o primeiro filho. “Que precisou de uma atenção muito especial, me levando a tomar a decisão mais importante da minha vida: deixar o meu trabalho para me dedicar integralmente a ele”, contou Aline.
De acordo com Aline, a experiência aproximou-a da APAE de Taquari. “Foi um período de muito aprendizado, amor e entrega, o que me aproximou de uma causa que hoje carrego no coração: a APAE de Taquari, instituição da qual faço parte da diretoria, onde sigo aprendendo todos os dias sobre a empatia, o respeito e a poderosa e insubstituível força da família, motivo decisivo para alguém lutar ou desistir”, contou.
João Vítor nasceu de cesariana em 26 de abril de 2004. Segundo a mãe, desde o nascimento foram percebidas algumas características que chamaram a atenção da família, como estrabismo e maior rigidez na mão, braço e perna do lado esquerdo. Aos dois meses, durante exames de rotina, a pediatra identificou que João não acompanhava objetos nem luz e o encaminhou a um neuropediatra. Após os exames, foram identificadas lesões cerebrais decorrentes da falta de oxigenação em algum momento durante a gestação, levando ao diagnóstico de paralisia cerebral. “Naquele momento, surgiram muitas dúvidas e inseguranças, pois era uma época em que tínhamos pouca informação sobre o assunto e tudo parecia muito difícil e complicado para nós”, relatou Aline.
Exames complementares de visão e audição apresentaram resultados normais. João foi então encaminhado para a estimulação precoce, iniciando uma nova etapa de acompanhamento. Aline afirma que a família nunca tratou a deficiência como uma barreira definitiva. “Nunca enxergamos a deficiência do João Vítor como uma limitação. Como dificuldade, sim. Qual a diferença? Quem enxerga limitação, não enxerga novas possibilidades, pois a limitação passa a ideia de que é só até um determinado ponto que se pode ir. A dificuldade é um obstáculo, apenas, mas que pode ser diminuído ou vencido”, defendeu Aline.
Segundo ela, a família sempre procurou estimular a autonomia do filho. “E assim sempre conduzimos os processos, nunca dizendo ao João que ele não conseguiria fazer algo, mas sim permitindo que ele fosse se conhecendo, se testando, se experimentando e chegando à sua forma de fazer as coisas, de maneira que pudesse se tornar o mais funcional possível, sempre partindo da ideia de que ele precisa desenvolver autonomia, independente da sua condição.”

Rotina e desafios

Aline explica que a família precisou adaptar a rotina às necessidades de João, principalmente em razão do acompanhamento permanente de terapias e consultas médicas. “Enquanto família, não encontramos dificuldades com o João Vítor. O que tivemos que fazer foram adaptações na nossa rotina, pois o João necessita de algumas atenções especiais. A paralisia cerebral exige um acompanhamento constante de terapias e consultas médicas, o que exige disponibilidade de tempo, organização e resiliência, pois há períodos que são uma verdadeira maratona, mas extremamente necessárias para que se alcance evolução e qualidade de vida”, afirmou a mãe.
Apesar dos desafios, Aline destaca a importância que o filho representa para a família. “Vale ressaltar que o João é um grande presente em nossas vidas, pois irradia luz, alegria e uma doçura impossível de medir. Inclusive, costumamos dizer que fomos agraciados por Deus, pois temos o amor na forma humana, sentado no sofá da nossa sala, todos os dias. João Vítor nos ensinou e nos ensina muito. É o nosso grande professor sobre a vida”, considera Aline.

Inclusão depende de oportunidades

Para Aline, a inclusão passa pelo conhecimento sobre as diferentes deficiências e pelo respeito às necessidades individuais. “Em primeiro lugar, conhecer as deficiências antes de julgá-las e aprender a olhar todas as pessoas com amor. Uma sociedade inclusiva é aquela que não trata com igualdade, mas sim com equidade, pois na igualdade nem sempre existe justiça, mas na equidade, sim”, disse. “Se eu oferecer a mesma coisa para pessoas com necessidades diferentes, não estou sendo justo. Mas se eu oferecer a cada um, conforme as suas necessidades, estou dando oportunidade e possibilidade a todos”, acrescentou.
“Pais de pessoas com deficiência não querem que ninguém tenha pena de seus filhos. Querem, apenas, que as pessoas não os tratem como incapazes e compreendam que nós precisamos das vagas especiais de estacionamento, de currículos adaptados nas escolas, de locais com acessibilidade, de cursos profissionalizantes inclusivos que possam capacitar nossos filhos para o mercado de trabalho, de oferta de atividades de lazer adaptadas, etc. Ou seja, incluir não é tolerar. Incluir é acolher”, ensina Aline.
Sobre a realidade das famílias, Aline diferencia exclusão de falta de suporte. “A família não se sente excluída, mas se sente, muitas vezes, desamparada, sobrecarregada e incompreendida. Graças a Deus, nós sempre tivemos a condição de proporcionar ao João Vítor tudo o que ele sempre precisou e precisa, mas essa não é a realidade da grande maioria das famílias, as quais não conseguem ter acesso ao mínimo necessário”, aponta.
Aline também chama atenção para o impacto que a rotina de cuidados pode provocar nos familiares. Conforme ela, “o que acarreta não só no agravamento das dificuldades dos filhos com deficiência, mas também desenvolve algo que recebe pouca atenção: problemas de saúde mental nos cuidadores (pais, avós, irmãos…) em decorrência do desgaste físico e emocional”, salientou.

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