“Ele era um orgulho que vou carregar para o resto da minha vida”

A frase é de Betinho, pai de Kelvin Kenaldy da Silva, jogador de 17 anos do Clube Pinheiros que faleceu no último final de semana

Kelvin Kenaldy da Silva, de 17 anos, morreu no sábado, 21 de junho, após passar mal no alojamento do Clube Pinheiros, onde jogava como goleiro titular na categoria sub-17.

De acordo com informações do presidente do clube, Hermes Porto da Rosa, naquela manhã, o adolescente ainda estava deitado na cama, não havia tomado café, quando um colega de quarto gritou avisando que Kelvin estava passando mal. Hermes diz que parecia que ele estava tendo uma convulsão. Uma ambulância foi chamada e em 15 minutos, segundo Hermes, o rapaz estava em atendimento no Hospital São José, onde teria recebido massagem cardíaca e tentativa de reanimação por 40 minutos. O óbito do menino foi atestado às 12h10 e, como causa, um evento cardíaco súbito e parada respiratória.
Hermes afirma que o atleta havia feito todos os exames exigidos pela Federação Gaúcha de Futebol e não havia registro de problemas cardíacos ou qualquer informação neste sentido. “Ele estava em Taquari desde o final de fevereiro. Estava aqui para realizar o sonho dele e dos pais, de ser jogador profissional de futebol”, lamenta. Conforme o diretor do clube Pinheiros, Kelvin era uma pessoa exemplar, excelente atleta, amigo e colega. “Tímido, mas vinha se tornando um líder do grupo devido às suas atitudes, sempre sensatas e corretas”, afirmou Hermes.

A despedida

Natural de Tapera, onde foi sepultado no domingo, 22 de junho, Kelvin também era aluno do terceiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Barão do Ibicuí, em Taquari. A diretora do educandário, Rosângela da Silva da Rocha, conta que os colegas Yasmin Cruz e Erick Souza Porto acompanharam o velório e o enterro de Kelvin, levando uma bandeira da escola, representando a comunidade escolar em Tapera. “Os alunos estão muito tristes. Fizemos um momento de reflexão, devolução da nossa bandeira e oração na segunda-feira. E hoje, os alunos de várias turmas da manhã se organizaram para prestar essa última homenagem. Fizeram o cartaz, costuraram uma fitinha de luto nos uniformes, compraram balões”, conta a diretora. O rapaz também foi homenageado durante os jogos escolares realizado no município nesta semana. “Foi uma manhã de jogos muito necessária para trazer mais conforto aos nossos corações e união dos nossos queridos alunos que sentiram muito a partida repentina do colega Kelvin”, lamenta Rosângela.

Filho único

Kelvin Kenaldy da Silva era filho único de Rosimeri Lopes de Oliveira, 35 anos e Roberto Carlos da Silva, 41 anos, o Betinho, auxiliar de produção em uma fábrica de ração. Em uma entrevista ao jornal O Fato, Betinho disse que ele e a esposa estão sem chão, sem rumo. “Para mim não sei se caiu a ficha, estou com medo de mim mesmo, minha reação. Minha esposa está muito mal mesmo, acho que isso é que está me segurando, estou dando suporte para ela. Kelvin não gostava de nos ver tristes, se preocupava com as coisas dele e ainda conosco”, relata Betinho.
O pai conta que a paixão pelo futebol já era presente aos seis anos de Kelvin e que sempre esteve ao seu lado nisso, mesmo tendo uma vida financeira difícil. O adolescente começou no futebol de salão, em Tapera. O pai espelhava no jogador Falcão, mas Kelvin se tornou goleiro. “Aos cinco, seis anos eles só vão para brincar, mas o goleiro acabou se machucando e eu falei para minha esposa, quer ver que vão pedir para o Kelvin atacar? E ele foi bom no gol nos treinamentos e começou nossa jornada”, recorda. Betinho revela que, muitas vezes, treinou o filho, pois nem sempre tinha condições de pagar um professor. Contou com a ajuda de pais de colegas de Kelvin, para levar em jogos, por exemplo.
“Era o melhor filho do mundo, não reclamava de nada, tudo para ele sabia que era suado. A luvinha se pagava, como se diz, porque ele ia até o fim dela, os tenizinhos, depois a chuteira”, conta Betinho.
O pai relata que Kelvin ajudava nos afazeres domésticos. “Fazia comida para nós, às vezes, quando ele estava em casa. Chegávamos em casa, a casa limpa, fazia chimarrão, extraordinário”, elogia. “É um cara que está de parabéns.”
Betinho conta que o filho não era festeiro e também tinha um comportamento tímido e tranquilo. Kelvin gostava de pescar. “Éramos uma família maravilhosa, fazíamos de tudo”, conta.
Kelvin passou em testes do Internacional de Porto Alegre e do Juventude de Caxias do Sul, mas a família não teve condições financeiras de seguir com estes planos. Mesmo assim, o atleta chegou a participar de copas pelo Inter, time em que o menino queria ser goleiro profissional. “Ele era um orgulho que vou carregar para o resto da minha vida”, se emociona o pai. “Busquei forças nele para contar tudo isso”, finalizou.

RECENTES

CATEGORIAS

ASSINATURA

Assine o jornal O Fato e receba diretamente no WhatsApp as principais notícias, reportagens exclusivas e tudo o que acontece no Vale do Taquari. Informação de qualidade, no seu dia a dia!

© 2025 O Fato. Todos os direitos reservados.