{"id":16338,"date":"2021-06-21T11:35:01","date_gmt":"2021-06-21T11:35:01","guid":{"rendered":"http:\/\/ofatotaquari.com.br\/novo\/?p=16338"},"modified":"2021-06-21T11:35:01","modified_gmt":"2021-06-21T11:35:01","slug":"paverama-municipio-mantem-a-cultura-do-dialeto-alemao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ofatotaquari.com.br\/ofato2\/paverama-municipio-mantem-a-cultura-do-dialeto-alemao\/","title":{"rendered":"PAVERAMA: Munic\u00edpio mant\u00e9m a cultura do dialeto alem\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 preciso andar muito tempo pelas ruas de Paverama para encontrar pessoas conversando em uma l\u00edngua que n\u00e3o \u00e9 o idioma oficial do Brasil, o portugu\u00eas. A comunidade mant\u00e9m h\u00e1 muitas gera\u00e7\u00f5es o dialeto alem\u00e3o hunsriquiano ou hunsrik, considerado, desde 2012, patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e cultural do Rio Grande do Sul, al\u00e9m de possuir titula\u00e7\u00e3o semelhante no estado de Santa Catarina.<\/p>\n<p>O dialeto originou-se no s\u00e9culo 19, no per\u00edodo de coloniza\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es brasileiras. Paverama \u00e9 um dos munic\u00edpios brasileiros que, junto \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o a\u00e7oriana, recebeu grande influ\u00eancia alem\u00e3 e a identifica\u00e7\u00e3o com essa cultura propagou o hunsriquiano no munic\u00edpio.<br \/>\nA moradora do Centro, Aleci Bauer, 59 anos, aprendeu a falar o dialeto ainda crian\u00e7a. Seus pais, Aura Von Muhlen, de 85 anos, e Erni Rudi Von Muhlen (in memoriam) residiam na localidade de Morro Azul e, assim como os vizinhos, utilizavam o alem\u00e3o na maior parte das conversas. Eles ensinaram o dialeto aos filhos antes mesmo do portugu\u00eas. \u201cNo interior, todo mundo falava em alem\u00e3o. Hoje, na minha fam\u00edlia, a gente continua conversando entre os irm\u00e3os para manter o costume, porque muitas vezes, quando se est\u00e1 junto de algu\u00e9m que n\u00e3o entende, acabamos evitando de usar\u201d, relata.<br \/>\nSegundo Aleci, o hunsrik segue forte no interior de Paverama, mas, na zona urbana, a cultura muitas vezes acaba n\u00e3o sendo passada \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes. \u201cHoje em dia n\u00e3o \u00e9 mais a mesma coisa, porque as fam\u00edlias v\u00eam para a cidade e precisam deixar as crian\u00e7as cedo na creche. Na escola, aprendem o portugu\u00eas, tem a conviv\u00eancia. O alem\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil de pronunciar as palavras, precisa enrolar a l\u00edngua. J\u00e1 o portugu\u00eas \u00e9 mais reto e, quando se aprende o portugu\u00eas primeiro, \u00e9 dif\u00edcil aprender o alem\u00e3o depois\u201d, considera Aleci.<br \/>\nDos quatro filhos que tem, a mais velha, Margrith Bauer Jantsch, de 43 anos, \u00e9 a \u00fanica que aprendeu o dialeto. \u201cFoi importante para mim aprender, me ajuda tamb\u00e9m com as vendas, porque tenho clientes que falam praticamente s\u00f3 em alem\u00e3o. Essa cultura tem que ser mantida\u201d, conta Margrith, que trabalha com floricultura. A comerciante quer passar a tradi\u00e7\u00e3o do dialeto adiante e conta que est\u00e1 tentando ensinar para o filho, de seis anos de idade.<\/p>\n<p><strong>Origem do dialeto\u00a0\u00e9 explicada por\u00a0pesquisador<\/strong><\/p>\n<p>Graduado em hist\u00f3ria pela Univates, Jeferson Schaeffer, 24 anos, morador e professor em Marques de Souza, participou, por 3 anos, do grupo de pesquisa \u201cIdentidades \u00e9tnicas em espa\u00e7os territoriais da Bacia hidrogr\u00e1fica do Taquari-Antas\/RS: hist\u00f3ria, movimenta\u00e7\u00f5es e desdobramentos socioambientais\u201d, coordenado pelo professor Dr. Lu\u00eds Fernando da Silva Laroque, da Univates. No projeto, s\u00e3o pesquisados aspectos hist\u00f3ricos, culturais e ambientais envolvendo os grupos humanos que circulam ou circularam por esses espa\u00e7os. A pesquisa traz informa\u00e7\u00f5es sobre o dialeto alem\u00e3o e Jeferson respondeu a perguntas do jornal O Fato.<\/p>\n<p><strong>Quais cidades que integram o Vale do Taquari possuem o dialeto alem\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Os munic\u00edpios das microrregi\u00f5es centro, centro-oeste e parte de oeste s\u00e3o de coloniza\u00e7\u00e3o alem\u00e3 e, consequentemente, de fala alem\u00e3, mas deve-se ter em mente que essas fronteiras n\u00e3o eram est\u00e1ticas e que esses grupos mantiveram contato entre si desde o princ\u00edpio. Esta coloniza\u00e7\u00e3o \u201calem\u00e3\u201d no Vale do Taquari ocorreu somente ap\u00f3s 1850, mas o que a sabedoria popular costuma chamar de \u201cimigra\u00e7\u00e3o alem\u00e3\u201d no Vale do Taquari \u00e9 algo muito mais abrangente, pois a Alemanha existiu como pa\u00eds unificado somente ap\u00f3s 1871. Nessas condi\u00e7\u00f5es, os imigrantes que integraram as migra\u00e7\u00f5es \u201calem\u00e3s\u201d no Vale do Taquari eram oriundos de distintos reinos germ\u00e2nicos e estados europeus.<\/p>\n<p><strong>Todas as cidades\u00a0falam o mesmo dialeto ou h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es. A diversidade de imigrantes germ\u00e2nicos em contato tamb\u00e9m gerou uma diversidade lingu\u00edstica, por isso, o dialeto falado hoje pode ser composto por palavras que possuem sua origem em l\u00ednguas distintas. Pesquisas realizadas no projeto da Univates apontam para a presen\u00e7a de imigrantes oriundos de regi\u00f5es germ\u00e2nicas, como a Westf\u00e1lia, Pomer\u00e2nia, Ren\u00e2nia, entre outras, que representam a coexist\u00eancia de dialetos no Vale do Taquari, como o westfaliano (Plattd\u00fc\u00fctsk), o pomerano (Pommerisch), o hunsriquiano (Hunsr\u00fcckisch), respectivamente. A pesquisa que realizei durante a gradua\u00e7\u00e3o e que foi tema da minha monografia tratou de fam\u00edlias de origem holandesa estabelecidas na segunda metade do s\u00e9culo XIX no Vale do Taquari, as quais tamb\u00e9m possu\u00edam dialetos pr\u00f3prios das regi\u00f5es de que eram oriundas, nos Pa\u00edses Baixos.<\/p>\n<p><strong>O idioma falado\u00a0na Alemanha \u00e9\u00a0semelhante ao dialeto aqui da regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O alem\u00e3o falado na Alemanha \u00e9 o alem\u00e3o padr\u00e3o (Hochdeutsch). Se trata do alem\u00e3o gramatical, uma forma padr\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o que foi criada, o que n\u00e3o quer dizer que as pessoas n\u00e3o falem dialetos, muito pelo contr\u00e1rio, no norte da Alemanha, onde vivi por um ano, as pessoas ainda costumam falar no ambiente familiar o dialeto Plattdeutsch. Em minha opini\u00e3o, como falante do dialeto Hunsr\u00fcckisch, h\u00e1 um grau de inteligibilidade entre o dialeto e o alem\u00e3o padr\u00e3o, assim como o dom\u00ednio do dialeto cria uma predisposi\u00e7\u00e3o para o aprendizado do alem\u00e3o padr\u00e3o. Na inteligibilidade, no entanto, algo que dificulta \u00e9 o fato de utilizarmos algumas palavras arcaicas em nosso dialeto, isto \u00e9, que j\u00e1 ca\u00edram em desuso no atual idioma alem\u00e3o, bem como costumamos fazer alguns empr\u00e9stimos do portugu\u00eas, o que causa limita\u00e7\u00f5es na compreens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como o dialeto \u00e9\u00a0repassado aos descendentes?\u00a0Sua utiliza\u00e7\u00e3o\u00a0ser\u00e1 preservada ou tende a acabar?<\/strong><\/p>\n<p>O dialeto costuma ser transmitido no seio familiar, geralmente no contato com pessoas de mais idade. Acredito, de forma geral, que os falantes de dialeto est\u00e3o envelhecendo no Vale do Taquari e o \u00eaxodo rural do final do s\u00e9culo XX contribuiu para que as gera\u00e7\u00f5es mais novas n\u00e3o tenham aprendido o dialeto. Alguns jovens hoje em dia falam, outros, por\u00e9m, somente entendem. Penso que o oferecimento do alem\u00e3o como l\u00edngua estrangeira nas escolas, a exist\u00eancia de programas de r\u00e1dio voltados a este tema, o trabalho dos Grupos de Dan\u00e7as Folcl\u00f3ricas Alem\u00e3s possam contribuir no sentido de instigar o aprendizado e refor\u00e7ar a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o dos dialetos locais.<\/p>\n<p><strong>Administra\u00e7\u00e3o\u00a0municipal destaca import\u00e2ncia cultural do hunsrik para o munic\u00edpio<\/strong><\/p>\n<p>Questionada sobre o dialeto hunsrik e o que pode ser feito para perpetu\u00e1-lo no munic\u00edpio, a Prefeitura de Paverama encaminhou nota sobre o assunto. \u201cA l\u00edngua alem\u00e3 para n\u00f3s, paveramenses, que ainda permanecemos com o costume das conversas em alem\u00e3o dentro de diversas fam\u00edlias, \u00e9 um resgate da nossa hist\u00f3ria. Sabemos que somos um povo de v\u00e1rias etnias, mas no geral, o alem\u00e3o \u00e9 um segundo idioma, falado em boa parte da cidade. Nunca foi entrado em detalhes sobre a ideia de perpetuar o idioma atrav\u00e9s das escolas, mas seria de grande valia. A secretaria de Educa\u00e7\u00e3o pode, no futuro, fazer um estudo com os pais e respons\u00e1veis pelos alunos, na prefer\u00eancia da l\u00edngua estrangeira a ser estudada. Hoje, temos o ingl\u00eas como prefer\u00eancia, mas, vemos com bons olhos, caso fosse escolhido o idioma alem\u00e3o. Ali\u00e1s, em nosso banco de professores, temos um especialista no assunto, que \u00e9 um professor formado nessa l\u00edngua\u201d, disse a Prefeitura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 preciso andar muito tempo pelas ruas de Paverama para encontrar pessoas conversando em uma l\u00edngua que n\u00e3o \u00e9 o idioma oficial do Brasil, o portugu\u00eas. 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