Nesta semana, o Jornal O Fato conversou com o diretor do Departamento de Governança dos Sistemas de Produtivos, Paulo Roberto da Silva, e com o presidente da Certaja Desenvolvimento, Luís Granja, sobre a crise do setor agrícola, endividamento do produtor rural e inadimplência do setor.
De acordo com nota técnica do Departamento de Governança dos Sistemas Produtivos, autarquia do governo Estadual, enviada pelo diretor Paulo Roberto da Silva, o Rio Grande do Sul sofreu eventos climáticos extremos, com as enchentes em 2023 e 2024 e secas em 2022, afetando fortemente culturas como arroz, soja e milho.
Conforme a nota, produtores enfrentam endividamento elevado, especialmente médio e grande, com dívidas acima de R$ 1 milhão. “Há pressão por liquidez para manter a produção e evitar inadimplência generalizada”, informou.
Dimensão do endividamento
A nota técnica revela que o estoque total de dívidas dos produtores rurais gaúchos alcança R$ 72,82 bilhões em 2025, segundo levantamento da Farsul.
Desse montante, as dívidas são com o Pronaf (agricultura familiar): R$ 24,36 bilhões (34% do total). Pronamp (médios produtores): R$ 16,41 bilhões (23%). Demais produtores (grandes): R$ 32,03 bilhões (43%). “Há R$ 1,26 bilhão em contratos vencidos, valor considerado elevado para o período”, consta na nota.
Renegociação e inadimplência
De acordo com informação do Departamento de Governança dos Sistema Produtivos, o valor das dívidas renegociadas é de R$ 22,28 bilhões (31% do total), mas com inadimplência média de 3,1%, chegando a 4,5% entre grandes produtores.
O valor das dívidas não renegociadas é de R$ 50,53 bilhões, com inadimplência menor (1,1%), mas risco crescente.
A inadimplência geral no Rio Grande do Sul é de cerca de 4,8% a 4,9%. “A menor do país, apesar da crise climática. Isso mostra resiliência, mas também alerta para risco de deterioração”, está na nota técnica.
Fatores que agravam a crise
O departamento cita os eventos climáticos extremos como agravantes da crise, com as secas prolongadas (2020-2022) e enchentes históricas (2024). “Causaram perdas superiores a R$ 100 bilhões no valor bruto da produção agropecuária gaúcha”, citou.
Outros fatores elencados foram a quebra de produção superior a 40% em algumas culturas, especialmente soja e milho. Custos elevados e crédito restrito, juros altos e exigências regulatórias dificultam acesso ao crédito rural. “Muitos produtores recorrem a financiamentos com cerealistas e cooperativas, com taxas mais caras”, informou o departamento.
Situação de Taquari
Em entrevista ao jornal O Fato, o presidente da Certaja Desenvolvimento, Luís Granja, afirmou que o cenário econômico atual e os desafios enfrentados pelo Estado do Rio Grande do Sul, especialmente em razão de eventos climáticos extremos, obrigaram os produtores rurais a renegociarem dívidas, aumentando o endividamento para as próximas safras.
“Essas renegociações de valores e vencimentos impactou na inadimplência de contas a receber da cooperativa, que saltou de um patamar histórico abaixo de 10% para quase 30%, considerando o valor total da carteira versos valores vencidos ou prorrogados”, disse Luís Granja.
Para o presidente, o agro é uma empresa a céu aberto. “Que sofre diretamente as intempéries do clima. Para esses produtores e a cooperativa superarem os desafios dos últimos anos, é fundamental uma boa colheita e que os preços da produção se mantenham num patamar de rentável”, afirmou.
Diversificação como saída
O produtor rural Cristiano da Silva Bizarro, que tem como um dos negócios o cultivo do arroz lamentou a situação do setor. “Para quem planta arroz, neste ano não tem como fechar as contas! O custo para produzir uma saca é de R$ 60,00 e hoje está sendo comercializada a R$ 50,00 a saca!”, revelou o produtor.
Para o alto valor de produção, Cristiano cita os insumos, adubo, herbicidas e óleo diesel. “O Brasil é um grande produtor do grão. Se não exportar, sobra aqui, ainda somado com uma supersafra no ano passado. Lei da oferta e procura, sobrou produto, baixa o preço”, explica.
Cristiano disse que a situação se complicou mais ainda com as últimas enchentes. “Foi perdido muito com a enchente, daí vieram os investimentos para recuperar, máquinas, terras, tudo. Isso para pagar nos próximos anos. E agora temos este ano em que o arroz vale menos que o custo de produção”, lamenta.
Para driblar a crise, Cristiano cita a diversificação na produção. “Eu, particularmente, tenho outras fontes de renda, sempre diversifiquei minha produção. O arroz hoje é uma das fontes, tenho gado, eucalipto, peixe!”, falou.
Ações
O Departamento de Governança e Sistemas Produtivos apresentou algumas ações desenvolvidas no âmbito estadual para enfrentar a crise no setor agrícola.
Programa de Irrigação com Subvenção: Incentivar o uso da irrigação por aspersão, localizada ou por sulcos; incentivar a reservação de água nas propriedades agrícolas; prevenir os graves prejuízos que as recorrentes estiagens causam no estado; aumentar a produtividade das lavouras e das pastagens de sequeiro; aumentar a produção estadual de milho irrigado; proporcionar condições de mais renda e estabilidade financeira ao agricultor.
Resultados até 29/12/2025
1.408 projetos encaminhados.
26.049 hectares de área nova irrigada.
Valor total dos Projetos: R$ 498,3 milhões (Investidos por produtores).
Valor total das subvenções previstas: R$ 65,8 milhões.

