O fim da era dos orelhões

Terminou a era dos orelhões, telefones públicos instalados no Brasil na década de 1970. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que começou, neste mês de janeiro, a retirada definitiva dos telefones públicos em todas as cidades brasileiras. Apenas cidades sem outra opção de comunicação manterão o serviço até 2028. A ação se dá devido ao término de contrato com as companhias que prestavam os serviços.

Conforme a Anatel, 38 mil aparelhos ainda permanecem no território nacional. A agência não tem informações de quantos aparelhos ainda existem em Taquari, mas a reportagem conseguiu localizar pelo menos dois, na esquina da rua Osvaldo Michel, no bairro Léo Alvim Faller e na rua Rio Branco, em frente à creche Paulo Freire.
O jornal O Fato entrevistou pessoas que possuíam alguma história envolvendo orelhões, que tinham o uso muito comum antes da popularização dos celulares.

Pela saúde do pai

Carlos Daniel da Silva, 40 anos, conta que lá por 1999 e 2000 estavam sendo instalada uma leva de orelhões no município. Ele, com então 13, 14 anos, estava preocupado com o pai, Olmerindo Luís da Silva, Seu Merico, que fazia frete com carroça de cavalo e tinha problemas de saúde. “O orelhão mais próximo ficava muito longe e era difícil, se meu pai ficasse ruim, eu ligar para minha irmã pra levar ele para o hospital”, lembra.
Foi assim que ele teve a ideia de pedir para os funcionários da empresa de telefonia se podiam instalar um orelhão bem em frente a sua casa, na rua Pontes Filho, no Prado. “Contei nossa situação na época”, recorda. E foi atendido. “O que facilitou muito minha vida naquela época”, diz Carlos Daniel. “Lembro que nem acreditei. Nossa irmã ligava para o orelhão para saber notícias. Serviu muito, nós corríamos para atender”, conta.
Carlos Daniel acrescenta que, naquela época, a carroça de cavalo era o único meio de transporte da família e por isso era necessário ligar para a irmã para levar o pai ao hospital.
Seu Merico acabou falecendo em agosto de 2002. O orelhão ficou em frente à casa de Carlos Daniel até a semana passada, quando pediu pela retirada para realização de uma obra. “E me lembro do número dele até hoje, 6536058”, recordou com nostalgia.

Pedia música

A costureira Silvane Marques Rodrigues Borges, 52 anos, lá por 1985, ia até o orelhão e ligava para a rádio para pedir música. “E pedia para dar um tempo até chegar em casa para escutar. Às vezes, chegava em casa e estava na metade da música”, lembra a fã de Leandro e Leonardo e Chitãozinho e Xororó.
Ela morava na rua Fábio Hausen Pereira, na Colônia 20, e o orelhão ficava no Bar do Seu Hugo.

Saudade da família

O orelhão da história do pintor Francisco Gabriel de Carvalho, 54 anos, ficava em Rio Claro, São Paulo.
Ele saiu de Taquari em 1990 para servir o exército na cidade paulista. “Eu fui morar com minha tia, pois meu sonho era conhecer São Paulo e servir o exército”, revelou.
Conforme Francisco Gabriel, durante três anos, o contato com a família em Taquari, os pais Cilon Valdir de Carvalho e Luci Capelão da Costa, se deu através de um orelhão. “Que tinha em um mercadinho lá em Rio Claro, que eu comprava as fichas DDD para ligar para casa”, contou.
“Eu ligava de um orelhão para casa do seu Renato Baptista (ex-prefeito) que mandava a empregada chamar meus pais para eu poder falar com a família”, recorda Francisco Gabriel. “Nossa, muito boa a lembrança destes dias ainda”, diz.

Saiba mais

O orelhão, icônico telefone público brasileiro, foi criado em 1971 pela arquiteta e designer sino-brasileira Chu Ming Silveira. Lançado em janeiro de 1972 pela Companhia Telefônica Brasileira (CTB), o projeto em formato de ovo (inspirado na resistência e acústica) foi desenvolvido para proteger usuários de chuva e sol, além de isolar ruídos urbanos.

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