Coordenador do curso de Arquitetura da Univates fala sobre o valor das construções históricas de Taquari

O arquiteto e urbanista taquariense Cristiano Zluhan Pereira, professor e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Univates, concedeu entrevista ao jornal O Fato, falando sobre o patrimônio histórico, tombamento e preservação.

“Sempre ouvimos falar que Taquari é uma cidade histórica; porém, talvez não saibamos ao certo os motivos dessa referência e, principalmente, a importância dos edifícios ainda presentes no nosso cotidiano, que contam um pouco dessa história”, inicia o professor. Conforme Cristiano, a região inicialmente era ocupada pela tribo indígena dos Patos, que compunham uma nação indígena poderosa e culturalmente pacífica. “Infelizmente, não se tem registros edificados, a não ser arqueológicos, dessa ocupação”, revela o arquiteto.
O professor resgata que no movimento de colonização do país, foram designadas para ocupar as terras que hoje formam a cidade de Taquari famílias do arquipélago dos Açores, pertencente a Portugal. “Cada família recebeu uma área de terras, de forma a ocupar uma terra produtiva pela proximidade de vários cursos de água, principalmente o rio que tem o mesmo nome da cidade. Para lhes dar posse, veio o capitão da infantaria Alexandre José Montanha. Iniciou como simples curato, ou seja, como áreas de posse, em 11 de maio de 1764, passando a freguesia (agrupamento ou povoação) em 7 de maio de 1765, sendo elevada à categoria de vila em 4 de julho de 1849 e denominada cidade em 9 de julho de 1891”, detalha Cristiano.

Origem do Vale

Ele explica que esta ocupação foi a primeira que originou todas as demais cidades que hoje formam o Vale do Taquari. “As primeiras famílias açorianas que chegaram trouxeram sua cultura e costumes, assim como sua forma de se vestir, morar, trabalhar, se alimentar e construir, adaptando-se aos poucos às condições de uma terra ainda sem nenhuma infraestrutura”, salienta o professor
De acordo com o professor, a formação da cidade se dá inicialmente nas margens do rio, pelo acesso à água e às condições da terra para o cultivo de subsistência e para o comércio, além da navegação, que veio a ser o meio de transporte mais eficiente da época. “Avançando para uma área mais alta, onde hoje é o centro da cidade, a ocupação passa a ser mais ordenada, com formação de quadras mais regulares e lotes de pouca testada e grande profundidade, características da urbanização portuguesa daquele período”, explica.
“Essa ocupação urbana também ajuda a entender por que as casas construídas naquele período eram quase sempre junto à rua, coladas umas nas outras, com telhado em duas águas (para frente e para trás) e com algumas dependências que ficavam fora da parte principal da casa, como a cozinha, por exemplo”, acrescenta Cristiano.

Inventário

Conforme o professor, algumas edificações ainda presentes na cidade ajudam a contar essa história, tanto no bairro Praia como no Centro. “Um pouco mais de 30 estão inventariadas pelo município, ou seja, estão catalogadas pelo seu valor histórico, e algumas também pelo valor cultural. Ter essas edificações como testemunho da importância histórica de Taquari, para a região, para o estado e, até mesmo, para o país, é um privilégio que deve ser compartilhado por todos”, acredita Cristiano.
Entretanto, o professor explica que o inventário não salvaguarda as edificações e tampouco ajuda na conservação; porém, identifica a importância e serve de ponto de partida para iniciativas coletivas ou institucionais para a preservação desse patrimônio. “Ao caminhar pela cidade, nos deparamos com o Theatro São João, a Igreja Matriz e algumas casas nas ruas Sete de Setembro, Osvaldo Aranha e General Osório, principalmente, como registro de uma arquitetura ainda colonial, construídas com os recursos da época, com elementos característicos da cultura açoriana (paredes, portas, janelas, telhados, divisões internas), que nos trazem para um momento de grande valor da região”, frisa o professor. Entre as construções inventariadas pelo município, está a sede que abriga o jornal O Fato, o Cartório Eleitoral, entre outras.
Cristiano também cita o bairro Praia. “É repleto de edificações da ocupação colonial. Quase todas possuem características que demonstram a riqueza da cidade, pois eram de piso elevado em relação ao chão, com vidros nas janelas e muitos elementos de ornamentação”, explica.

Tombamento

Segundo o professor, atualmente, apenas a Casa Costa e Silva está sob proteção legal do tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). “O que resguarda sua importância como elemento arquitetônico e cultural em nível nacional, possibilitando também a busca de recursos para a manutenção dessa história”, diz
Para o professor, o tombamento é um processo legal que deveria ser estendido a outras edificações, pois salvaguarda a sua preservação. “Este tombamento pode ser feito tanto em nível nacional, estadual quanto municipal. O fato de a edificação estar tombada não significa que não possa ser restaurada ou até mesmo que tenha seu uso modificado, desde que preserve algumas características históricas importantes”, explica.
A iniciativa de tombamento, conforme Cristiano, geralmente parte do poder público, no momento em que se identifica o valor histórico e/ ou cultural para uma comunidade, cidade ou região. De acordo com o arquiteto, para o município desenvolver processos de tombamento, ele precisa de uma legislação para isso, e Taquari não tem. “O município que tem isso mais avançado é Rio Pardo”, acrescenta. Entretanto, o professor afirma que o município pode pedir o tombamento aos institutos nacional e estadual. Cristino salienta que o tombamento serve para que as construções não sejam demolidas e não sejam danificadas em suas características originais.
Destaca que a preservação do patrimônio possibilita, além de se ter o testemunho de uma época que ainda pode ser visto e estudado, o desenvolvimento turístico de toda a cidade, que pode se alicerçar no turismo histórico, inclusive pela importância de Taquari para a região do Vale. “O turismo acaba movimentando toda uma cadeia de serviços que servem de apoio para roteiros, visitações, eventos, entre outros. A conservação dos edifícios possibilita que a história, além de continuar a ser contada, possa ser vivenciada”, conclui.

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